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 MAIO DE 2011




Do corpo para o teatro

   por Raquel Loboda Biondi

   
   A expressão corporal é também um ato de comunicação. Dela, saem ações, reações. Por ela, articulam-se movimentos, gestos, posturas – é possível ser e se encontrar, buscar, modificar, descontruir, contudo, as interpretações plurais e tão próprias do corpo e suas criações só alcançam objetivos se ligadas a uma consciência. Sem restringir o autoconhecimento necessário, o fisioterapeuta Everson de Cássio Robello inspirou nos participantes do workshop “Alinhamento e consciência corporal na postura” justamente este novo conhecimento. Realizado no dia 14 de maio, pela Companhia Bodega de Teatro, o treinamento levou ao amplo espaço da Galeria Foco movimentos mais precisos, estudados: pela sala, ora sentados, deitados, ora em pé, não somente atores como profissionais de outras áreas compreenderam as possibilidades de percepção do próprio corpo.
   “Musculatura e flexibilidade estão intimamente ligadas”, disse Robello. Sem se ater aos termos técnicos da fisioterapia, o palestrante levou aos presentes uma explicação básica sobre biomecânica, fisiologia e biologia do corpo para, então, prosseguir com atividades práticas. Dicas cotidianas sobre a postura da coluna mais adequada também surpreenderam: “Lavar a louça com o pé apoiado em um tijolinho, por exemplo, é ideal para a postura. São ideias boas, simples, mas que ninguém faz. Os hábitos não mudam de hoje para amanhã, mas é importante começar uma adaptação para tentar manter a postura reta em atividades rotineiras”.


Everson Robello ministrando o workshop

   Enquanto imagens de slides ilustravam as orientações, alguns mitos sobre a importância do alongamento também foram desfeitos. Dúvidas comuns foram esclarecidas. A interação saía do corpo e ganhava força nas falas, conversas e descontração trocadas entre os participantes.
   De acordo com Robello, o alongamento é um método para a recuperação da amplitude dos movimentos, pode trazer uma melhora da função muscular, mas, diferente de como se pensava até uns quatro anos atrás, o alongamento não é bom para tudo. Seu caráter preventivo, antes destacado por profissionais da saúde, hoje, é questionável. “Antes de outras atividades físicas ou até mesmo de um dia de trabalho, o alongamento feito por muito tempo estica a região e pode estressar os músculos, diminuir o metabolismo, causar uma fadiga mais rápida e, muitas vezes, algum tipo de lesão. O ideal seria fazer um alongamento de apenas 10 segundos ou trabalhar este método de maneira isolada, sem outra atividade anterior ou posterior a ele”. O fisioterapeuta ainda lembrou que o essencial para anteceder algum exercício físico, dança ou aula de teatro, é o aquecimento do corpo, o movimento das articulações.

       

          Everson aplica alongamento em participante                  Aluna faz a prática do alongamento


   Mais conscientes, os participantes partiram para o exercício prático do autoconhecimento corporal. Robello orientou alguns treinos importantes e necessários à rotina de qualquer pessoa. Em duplas, deitados nos colchonetes, os integrantes do workshop analisavam a consciência corporal dos companheiros, faziam alterações necessárias e, com apoio do profissional, discutiam os resultados vistos. Com naturalidade, a postura ideal aparecia entre tentativas e olhares atentos sobre a coluna, posição da cabeça, ombros, braços e pernas. “Esta é a percepção do nosso corpo. Cada um tem uma consciência corporal e deve treiá-la”, disse Robello. Trabalhar a postura em pé e de frente para o espelho também é um bom exercício.
   Aos poucos, a autocorreção e uma nova sabedora sobre si mesmo era desenvolvida pelos presentes – prática essencial para que tanto na vida quanto nos palcos, as diversas interpretações possíveis ao ser humano se encontrem nos movimentos conscientes do corpo.


Exercício de consciência corporal demonstrado pelo professor







Everson de Cássio Robello
CREFITO 3-60671/F

Fisioterapeuta graduado pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduado em Ortopedia e Traumatologia pela UNICAMP – Campinas. Atualmente é professor Supervisor de Estágio Supervisionado na Universidade Paulista – UNIP Jundiaí. Fisioterapeuta da clínica UNIEF-Fisioterapia, trabalha com Ortopedia e Traumatologia, Reeducação Postural Global (RPG/RNP), Técnicas Manipulativas e Mobilização Neural.




DEZEMBRO DE 2010



“Vai ver teu ninho, sabiá...” 
Um dia de boas histórias para contar  
por Raquel Loboda Biondi


Em uma grande roda, cada um escolhia um gesto próprio e, com ele, dizia seu nome. As mãos para o alto, o coçar a cabeça ou a quase reprodução de uma pose de bailarina eram formas, entre tantas outras, do corpo falar pela pessoa: “Nosso jeito de ser é o nosso jeito de contar história”.

 Assim, descontraído e lúdico, começou o “Workshop de Contar Histórias” do dia 11 de dezembro de 2010. Realizado pela Companhia Bodega de Teatro, na Galeria Foco, o encontro teve a presença de Vivian Catenacci, uma experiente contadora. De voz sonora e expressões únicas, foi ela, quem conduziu as histórias/aprendizados até o fim da tarde, e logo, as falas dos corpos dos 18 inscritos no grupo iam se desprendendo e, delicadamente, tomavam rumos de pura imaginação.

Roda de apresentação - Foto: Paula Pimenta


Dinâmica de apresentação - Foto: Paula Pimenta

“Eu conto histórias porque desde pequena, eu me alimento delas. Ouvia-as pela boca de minha avó mineira e elas ficaram no meu coração. Em um determinado momento, pediram para sair e então eu nunca mais parei de contar”. Enquanto relembrava situações em que a narração oral e a mediação da leitura marcaram sua escolha profissional, Vivian dividia com os espectadores (bastante participativos) o prazer pela arte da contação. Professores, atores, advogados, estudantes e curiosos compunham a roda. A pluralidade estava ali e dela, alimentaram-se todos para contar suas próprias histórias e treinar uma nova habilidade.

Divididos em grupos, os inscritos foram convidados a ouvir e contar histórias. Após uma seleção feita entre os mesmos, um “narrador” escolhido transmitia o conto para os restantes da sala. Assim vieram surpresas de todos os tipos, das brincadeiras de menina na pia, lavando garfos e facas como se fossem personagens; de antigas amizades ainda guardadas na coxia de um teatro; dos erros e superações em concertos de piano. Sentia-se o cheiro, as risadas, o tempo e o clima dos locais descritos.  “A gente não compartilha o que não tem”, disse Vivian. “Histórias são boas para rir, para pensar ou se emocionar. Nós temos dificuldade de somente dar. Queremos sempre explicar e não é preciso. Contar uma história é como dar um presente, do qual gostamos, e cabe ao ouvinte, a jeitos diversos de públicos diversos, a compreensão única daquela contação”.

Participante contando uma história - Foto: Paula Pimenta

Contar história não é só uma brincadeira. É também um talento. É uma forma de experimentar a maturidade: entregar o que se tem para que o outro possa e saiba lidar. “É preciso respeitar os tipos de ouvintes, interagir com o público e perceber de que maneira, a história pode ser recebida. São momentos, lugares que exprimem sintonias diferentes”, ressaltou a profissional. Por tal motivo, ela recomendava a cada um da roda que contassem histórias que, de fato, conheciam. “Para quem já trabalha na área ou quer se iniciar, é importante buscar contos que vêm do coração. Histórias com as quais a gente se identifique”.

Lembrando Walter Benjamin em “O narrador” (1936), as diferenças entre ler um romance (experiência solitária) e contá-lo a alguém (ato coletivo) também foram discutidas no workshop. São atividades complementares, no entanto, que demandam habilidades diferentes. Vivian enfatizou a condição conjunta exigida pela contação de histórias: “O prazer não está só na história contada, mas também no grupo, no momento. A nossa subjetividade e imaginação precisam da subjetividade do outro. O encontro e a recepção dos ouvintes trazem elementos para compor as variadas formas de contar”.

Contadora Vivian Catenacci cantando e tocando pandeiro - Foto: Paula Pimenta

As imagens não podem mudar, mas as palavras e trejeitos são inúmeros ao contador. Vivian ainda explicou como todos ali podem aprimorar tal habilidade ou trabalhar um possível talento ainda não despertado. Uma mesma história pode se repetir entre diversos grupos - o que garante o seu alcance é justamente a cumplicidade e a permanência da estrutura do conto a ser desenvolvido. Aos atores/atrizes, ficou entendida a diferença entre interpretar e contar uma história, pois são performances completamente distintas, ainda que uma experiência possa enriquecer a outra.

Depois de histórias, contos e cantos; dicas de leitura e versos declamados, a imaginação já não se continha. No início do workshop, uma das presentes disse ter ouvido do sobrinho de 6 anos: “Tia, o que é imaginação?”. A resposta, ela improvisou e deste improviso, surgiram reflexões e curiosidades sobre a contação. No momento da roda, não foi diferente – as questões e o interesse pela criatividade foram a chave para que um público tão heterogêneo encontrasse partes tão comuns em apenas um sábado de sol.


Sobre a Contadora

“Cresci ouvindo histórias. Histórias de boca e histórias de livros. Devo admitir que as histórias que saíam da boca mineira da minha avó sempre foram as prediletas. Lembro-me até hoje delas.
Como professora do 3º ano do hoje chamado Ensino Fundamental, me vi aumentando vários pontos nos contos que um dia foram narrados para mim. Sem perceber, fui tornando-me contadora de histórias.
Aluna do curso de Ciências Sociais da PUC-SP e bolsista do Programa Especial de Treinamento (PET-CAPES) interessei-me pelos aspectos da cultura popular brasileira. Em especial, me aproximei pelos contos tradicionais, coletados diretamente da ‘boca do povo’ por pesquisadores denominados folcloristas. Esse estudo deu origem ao artigo ‘Cultura popular: entre a tradição e a transformação’, publicado na revista São Paulo em Perspectiva, da Fundação Seade e ao livro ‘Festas Juninas, Festas de São João’, em co-autoria com a Professora Dra Lúcia Helena Vitali Rangel.

                                                                       Vivian Catenacci