por Raquel Loboda Biondi
No centro histórico de Santos (SP), o antigo Teatro Guarany abriga novos ares. Revitalizado, tem cores e formas pinceladas no teto e em uma noite chuvosa de feriado (07/09) trouxe à plateia, elementos de uma peça bastante contemporânea. No palco, apenas duas cadeiras, jogos de luzes, dois atores, e, logo de início, diálogos transbordando metalinguagem. O texto canadense de Daniel MacIvor (um contemporâneo), com direção de Enrique Diaz dá espaço para que o espetáculo discuta o próprio teatro, suas maneiras de ser e de criar possibilidades através das personagens. Entre três camadas, os atores Emilio de Mello e Fernando Eiras dramatizam e divertem. Dentro de In on It são eles, atores também.
Sutilmente entrelaçadas, acompanhadas de poucas músicas que se repetem e de ambientes imagéticos criados pela luz, as cenas ora representam um ensaio teatral, ora são comentários sobre o próprio ensaio. Em outros momentos, mais descontraídas, as personagens também recriam e revelam o passado de sua relação: são dois amantes que não mais se reconhecem. Assim segue a peça, poética e irônica; interagindo com o acaso, com o que acontece diante do público e com personagens variados que se desdobram da interpretação sofisticada dos atores. Ao todo, eles dão conta de dez papéis.

Teatro Guarany (Santos) - Divulgação portogente.com.br
Cena de In on It - Divulgação sescsp.org.br/mirada
A umas quadras dali, os conflitos calorosos de uma família dão o tom contemporâneo ao clássico Teatro Coliseu (reformado em 2006). É o espetáculo La Omisión de la Família Coleman, encenado pelo grupo argentino Companhia Timbre 4. Ao invés de duas cadeiras; mesa, sofá, roupas, tapete, cama e bicicleta compõem um cenário doméstico – pela casa dos Coleman transitam personagens conturbados e seus problemas próprios. Quando misturados, tais conflitos contribuem para a desestabilização geral e material da família. Nada mais atual e originalmente argentino, pois o atrativo parece vir da própria língua espanhola, de diálogos afetados e bem-humorados, além de fazer referência aos reflexos da crise econômica vivida pelo país em 2001. O texto é de Claudio Tolcachir, um dos fundadores da companhia.
No Teatro Coliseu, largo e com quatro andares, criou-se um clima mais intimista. A plateia reduzida para 120 lugares foi montada em uma parte do palco; onde o público parecia próximo de um tema tão expansivo: personagens de uma família que centrava dilemas e soluções na presença da avó. Quando a simpática senhora cai doente, há uma desorientação e novos rumos assumidos por cada parente - alguns que voltam, outros que vão e no cenário, a luz, amarela e estática, se concentra em uma cama de hospital. Dramático e divertido, simples e complexo como In on It. No entanto, um espetáculo com outros recursos para também ser contemporâneo.
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Teatro Coliseu (Santos) - Divulgação sescsp.org.br/mirada![]() Atores da Companhia Timbre 4 - Divulgação sescsp.org.br/mirada |
Uma das intenções do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos foi justamente convergir produções teatrais contemporâneas. Pelas diferenças e semelhanças; por variados textos, cenários e montagens, o festival concentrou em uma vasta programação a atualidade do teatro, unindo gerações de criadores e uma pluralidade de percepções.
In on It e La Omisión de la familia Coleman são belos exemplos dessa mobilização artística realizada de 2 a 11 de setembro na histórica e charmosa cidade de Santos. Além de espetáculos brasileiros e internacionais, oficinas e palestras foram destaque na temporada.
Em uma das tardes no SESC, estiveram presentes Antunes Filho e o autor Sebastião Milaré para o lançamento de “Hierofania O teatro segundo Antunes Filho”. O livro é fruto de dez anos de pesquisa sobre os métodos, meios desenvolvidos e referências estéticas do grande diretor brasileiro. Vai desde a estreia de Macunaíma (1978) até a fundação do CPT – Centro de Pesquisa Teatral do SESC.
O estudo de Milaré é repleto de documentos, análises e depoimentos, tanto de atores-discípulos de Antunes quanto do próprio diretor. Giulia Gam, uma de suas principais artistas, também presenciou o lançamento, chegando lado a lado de quem a iniciou na carreira. A importância de Antunes Filho para o teatro brasileiro documentada no livro, também se reflete em sua participação no MIRADA: o festival contou com a apresentação de sua mais recente montagem à frente do CPT, o espetáculo Policarpo Quaresma.
Cena de Policarpo Quaresma - Foto: Emidio Luisi/Divulgação sescsp.org.br/mirada
Sempre fundamentando na ideologia de que é preciso transformar o ser humano para formar o ator, Antunes Filho com sua admirável simplicidade assistiu à peça peruana do Grupo Cultural Yuyachkani. Hecho em el Perú, vitrinas para um museo de la memória conecta ação dramática e artes plásticas em uma nova linguagem. O roteiro do espetáculo fica à escolha do espectador; ele caminha por uma galeria em forma de corredor com três vitrines de cada lado. Em cada ambiente, sons, objetos e atores geram diferentes sensações ao interlocutor.
Ao fim da peça de um dos grupos ícones do teatro independente latino-americano, Antunes Filho fez questão de aplaudir vitrine por vitrine. Tal atitude é uma prova para além de seu talento, ela vai ao encontro do sentido de sua ideologia e da mensagem que no lançamento de seu livro, ele reafirmou: “Um grande artista precisa ser primeiramente um grande ser humano”.


